“Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça. Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor.” (Cora Coralina)

24 de março de 2013

A dificuldade de estar só


Ficar sozinho, sem companhias ou distrações mentais, significa entrar em contato com tudo que tem de bom ou ruim que existe no nosso interior. Se estivermos felizes, equilibrados, sentindo paz interior, apreciar a própria companhia se torna algo prazeroso.
Entretanto, a maioria dos seres humanos está carregada de sentimentos, pensamentos e emoções que provocam um intenso barulho interno. Observe a sua mente que incessantemente pensa em uma coisa após a outra. E muitas dessas emoções e pensamentos são negativas e desagradáveis. Existe um ruído mental como se fosse um rádio com um locutor que não para nunca. Além de não parar, o que já traz cansaço e saturação mental, essa estação de rádio traz muitas notícias negativas que causam medo, tensão e estresse.

Quanto maior o barulho mental, ou seja, quanto mais estamos carregados de emoções e pensamentos, e quanto mais negativo é esse conteúdo, mais teremos dificuldade de ficarmos sozinhos. A intensidade desse fluxo mental e a carga negativa que ele carrega variam muito de pessoa pra pessoa. Quando esses níveis de desconforto interno se elevam, buscaremos várias formas de fugir de nós mesmo, buscando companhias e distrações mentais. Poderíamos buscar formas de curar essa negatividade, mas por não sabermos como, acabamos optando pela fuga. Vou falar mais sobre essas fugas.

Existem aquelas pessoas que não conseguem ficar sem um relacionamento amoroso. Se a relação atual acabar surge um desconforto tão intenso que a faz buscar um novo relacionamento o mais rápido possível. Levadas por esse impulso, essas pessoas emendam um relacionamento atrás do outro e nunca conseguem passar um período mais longo sozinhas. Problemas em sua auto-estima, necessidade de reconhecimento e atenção, carências profundas levam a esses comportamentos.

Tem pessoas que precisam estar constantemente na companhia dos amigos. Ficam inquietas, tristes e ansiosas se não houver alguém disponível para sair ou conversar. A interação com outras pessoas lhes serve para não entrar em contato com o seu desconforto interior.
Utilizamos mecanismos de fuga para não estarmos sós mesmo quando não temos nenhuma companhia. Ficar na televisão por horas, ver muitos filmes, navegar incessantemente na internet, jogar no computador, trabalhar demais, estudar demais, são algumas outras formas de distrair a mente para não sentir a desagradável e excessiva carga de pensamentos e sentimentos que carregamos. São atividades que podem tomar todo o nosso foco e atenção  e trazem um aparente alívio.

Tem pessoas que são viciadas em exercícios físicos ou atividades radicais. Quando há uma compulsão, uma dependência dessas atividades significa também que está havendo uma fuga de si mesmo. É diferente de praticar por prazer. É certo que essas atividades podem ser bastante prazerosas e saudáveis, mas elas são mais bem aproveitadas e praticadas com mais equilíbrio quando estamos bem por dentro e não as utilizamos como forma de fugir de nós mesmos.

Outra forma de fugir é viajar mentalmente. Sonhar acordado, planejar o futuro sempre, ou ficar imaginando como vai ser e que será melhor, deixando de viver o momento presente para não sentir todo o desconforto interior, é mais um mecanismo de defesa.
Outros vícios e compulsões também são formas de fugir de si mesmo. São coisas que dão prazer e podem ser utilizadas para mascarar temporariamente o desconforto interior: comida, sexo, jogo, compras e etc.

Normalmente utilizaremos várias dessas estratégias em momentos alternados para nos ajudar a fugir da nossa própria companhia: relacionamentos amorosos, interação com amigos, televisão, trabalho em excesso, viajem mental e etc.

Na prisão, o pior castigo que um preso pode receber é ir para a solitária. Por que será que é tão ruim ir para a solitária? Por que ele vai ficar consigo mesmo, em contato com todo o seu barulho interno, que é carregado de um fluxo intenso de pensamentos e sentimentos, muitos deles bem negativos, sem a possibilidade de distração. O único mecanismo de fuga que ele pode utilizar é a viagem mental.
Coloque um "mestre zen" dentro de uma solitária e ele ficará lá dentro sem problema algum, sentindo uma profunda paz interior, a mesma paz que ele sentiria em qualquer outro lugar. Não seria nenhum castigo. Isso porque ele já não tem mais toda essa carga intensa interna que a maioria de nós ainda tem.

A intensidade desse desconforto interior depende da carga que vamos acumulando durante a vida. Passamos por experiências que nos deixam impregnados com emoções negativas através de eventos que vivemos, coisas que ouvimos (da família, religião, televisão, e sociedade em geral) e coisas que testemunhamos.

Observe as memórias que você tem de situações do passado. Pode ser de coisas que você experienciou em um passado mais recente ou lá da infância. Com um mínimo de investigação, você conseguirá lembrar-se de dezenas de situações que trazem emoções desagradáveis.
Essas memórias impregnadas de emoções negativas se acumulam no nosso inconsciente e mexem como o nosso estado emocional e mental. Nos deixam mais pessimistas, ansiosos e inquietos e baixam a nossa auto estima. Tornam o nosso sono mais agitado e menos profundo. Em níveis mais intensos, essa carga acumulada, leva a quadros emocionais mais graves que damos nomes como depressão, ansiedade generalizada, pânico, transtorno bipolar e etc.

Atendi um rapaz que me procurou se queixando que não conseguia ficar quieto em casa. Precisava constantemente sair, se divertir, estar com amigos, sempre fazendo alguma coisa. A maioria das pessoas nem percebe o quanto isso é um reflexo de um desequilíbrio mais profundo. Como ele vinha lendo e buscando autoconhecimento, percebeu que isso poderia ser trabalhado. Fizemos algumas seções trabalhando sentimentos do passado, pressões da família, sentimentos de auto cobrança.

O resultado é que ele sentiu pouco a pouco uma diminuição do desejo intenso de sair e começou a ter prazer de ficar em casa para fazer atividades mais tranqüilas ou apenas para relaxar. Continuou sentindo prazer em sair e ver os amigos, mas não mais como uma compulsão para fugir de si mesmo. Tudo isso o levou a ter uma vida bem mais equilibrada com mais tempo para cuidar do seu corpo, da sua mente e do seu trabalho.

(André Lima - www.eftbr.com.br)

18 de março de 2013

Múltiplas Personalidades e Individuação


Ao longo de minha prática clínica, tenho me deparado com observações significativas sobre a estruturação e desenvolvimento de nosso psiquismo transpessoal, e que muito têm contribuído para minha compreensão do ser humano.

Uma situação instigante está sendo perceber que as pessoas não possuem uma personalidade única e global, construída a partir do somatório dos conteúdos acumulados das vidas sucessivas. É um fato que esta personalidade existe em formação, contudo, ela não elimina de pronto a existência das anteriores personalidades já vividas, que continuam coabitando o psiquismo com ela, guardando certa independência, muitas vezes por longo tempo.

Ou seja, somos o somatório de diversas personalidades que vivemos nas múltiplas reencarnações, construindo aquilo que podemos chamar de uma personalidade transpessoal ou cósmica, mas nessa construção, as personalidades anteriores não são imediatamente absorvidas no conjunto, ao contrário, algumas delas permanecem ativas e relativamente autônomas, mantendo suas características originais, emergindo para a superfície do psiquismo e exercendo influência direta sobre o pensamento e comportamento de acordo com as circunstâncias que possam evocá-las.

Vamos tentar explicar melhor, incluindo nessa explicação um resumo do modelo teórico de desenvolvimento do psiquismo. As experiências vividas pelas diversas personalidades que já tivemos vão sendo registradas nas áreas superficiais do psiquismo. Quando da morte do corpo físico, a personalidade não se extingue, continuando como protagonista no período entre vidas (falo aqui de individualidades espirituais em nível primário e mediano de evolução e não daquelas já mais avançadas). No processo de retorno a uma nova encarnação, a personalidade anterior, então, vai sendo transferida para as zonas mais profundas do psiquismo, em nível do inconsciente, mantendo-se mais ou menos na superfície ou em profundidade de acordo com a atualidade das experiências ou da intensidade com que elas marcaram as estruturas energéticas. Isso quer dizer que vidas passadas mais recentes ou que foram muito marcantes do ponto de vista emocional, e não devidamente elaboradas, permanecem mais na superfície.

Por que isso acontece? Porque todas as experiências que já vivemos deverão se transformar em algum produto de aprendizagem, tornando-se patrimônio inalienável da individualidade. Quanto mais recente e mais intensa a experiência mais difícil de ser elaborada e transformada nesse produto de aprendizagem. Por isso permanecem mais na superfície, aguardando as novas experiências que ajudarão a promover a elaboração necessária desses conteúdos.

Então, existem personalidades que permanecem ativas no psiquismo e outras que já foram elaboradas e que se diluíram como produtos de aprendizagem nas profundidades psíquicas, formando, aí sim, a definitiva personalidade transpessoal ou cósmica. Dessa forma, podemos identificar em terapias regressivas, que tratem de vidas passadas, personalidades anteriores que ainda estão ativas no psiquismo desse paciente, dependendo muitas vezes de circunstâncias específicas que funcionam como gatilhos para a sua emersão.

Quase sempre são aquelas situações em que o Ego atual diz não conseguir controlar, levando a pensamentos e atitudes que preferiria não realizar, mas que são mais fortes do que ele. Um exemplo bem marcante dessa realidade foi um paciente, hoje do sexo masculino, que já teve uma vida como um comandante guerreiro de muita força, outra como um escravo abusado sexualmente e outra como um contador traído pela própria irmã. Na vida atual os comportamentos desses três personagens aparecem de forma quase autônoma em situações específicas: reagindo com muita agressividade e poder de força, se submetendo passivamente ou subjugado pelos seus conflitos sexuais.

A idéia de individuação desenvolvida por Carl Gustav Jung pode se aplicar de forma bastante apropriada para a formatação desses conceitos, apesar dele a princípio não levantar a existência de múltiplas encarnações mas de múltiplos aspectos da natureza psíquica, denominados por ele de arquétipos. Esses arquétipos, além de conteúdos simbólicos como ele definiu, me parecem ser também compostos pelas diversas encarnações da individualidade.

A individuação, como meta de saúde psíquica, nada mais seria do que o caminho em direção à personalidade síntese, transpessoal ou cósmica, englobando todas as experiências pregressas devidamente elaboradas como produtos de aprendizagem.

(João Carvalho Neto (Psicanalista) - www.joaocarvalho.com.br)

12 de março de 2013

O Poder da Aceitação


Sempre que surge em nós alguma emoção negativa, estresse ou qualquer tipo de desconforto emocional, é um sinal de que, em algum nível, entramos em um processo de não aceitação da realidade. Situações acontecem e reagimos internamente contra a realidade nos causando sofrimento.

Os pensamentos de não aceitação são os mais diversos. Alguns desses pensamentos falam sobre coisas que estão acontecendo no presente momento, e outros focam em situações já passadas: “Eu não deveria ter feito isso”; “Fulano deveria ter falado comigo de outra forma”; “As pessoas deveriam se comportar de tal maneira”; “Eu deveria ter feito outra coisa e não fiz”; “O mundo deveria ser mais justo”; “Eu não aceito o que aconteceu comigo”; “Não suporto o jeito de falar de fulano” (pensamento que deixa implícito que fulano deveria ser de outra forma); “O avião não deveria estar atrasado” e etc.

Imediatamente ao entrarmos em conflito com a realidade, surge desconforto. Ditamos internamente como a realidade e as pessoas deveriam ser. Mas elas são sempre do jeito que são, e não há pensamento no mundo dentro de nós que possa mudar a realidade do jeito que ela está se apresentando naquele momento, ou o que já passou.

Uma das formas mais comuns de não aceitação da realidade é o hábito de reclamar. Existem pessoas que reclamam continuamente de tudo o que acontece e que não se encaixa com o ideal imaginário que ela criou. Reclamam do trânsito, da fila, do atraso, do salário, das atitudes de alguém, e até do clima, o que as deixam eternamente estressadas e insatisfeitas.

Existe uma crença que está profundamente enraizada no inconsciente coletivo que diz que se nós aceitarmos as coisas como elas são, não vamos fazer nada e assim tudo ficará do jeito que está. Essa crença deixa implícito que nós só vamos agir se ficarmos infelizes e estressados, o que ajuda a alimentar o estado de não aceitação. O que acontece é que a maioria das pessoas continua reclamando, gerando muito desconforto para si e para a coletividade, e não toma providências práticas para melhorar a realidade.

Será que é possível entrar em um estado de aceitação e agir mesmo assim para mudar algo? Sim, é claro que é possível. Aceitação é diferente de acomodação. Aceitação é apenas o fim da guerra interna com a realidade; o fim da ditadura interior que diz que a realidade deveria ser de outra forma, enquanto ela é do jeito que é, nos causando apenas estresse. A acomodação acontece quando podemos fazer algo e não fazemos. Podemos aceitar a realidade, ou seja, deixar de ficar brigando internamente com ela, já que isso não ajuda e apenas nos causa desconforto, e ao mesmo tempo fazermos o melhor que pudermos para tornar a realidade mais prazerosa.

A acomodação é sempre um reflexo de medos, inseguranças e processos de auto-sabotagens se manifestando 
em alguém. Não faz sentido poder fazer alguma coisa e simplesmente não fazer. Um ser humano em perfeito equilíbrio emocional consegue aceitar em paz a realidade e ao mesmo tempo age da melhor forma que puder, se tiver algo que possa ser melhorado com sua ajuda. Se você faz um pedido ao garçom e ele traz a comida errada,  é possível simplesmente aceitar o erro que ele cometeu (e assim não se sentirá estressado)  e ao mesmo tempo pedir pra que ele traga o prato correto.

Uma pessoa acomodada sente medo, preguiça, vergonha e acaba não tomando a providência necessária. Já a pessoa que está no modo da não aceitação, toma a providência, mas acaba gerando  muito desconforto para si mesmo. Conforme todos nós sabemos, o estresse afeta a nossa saúde emocional e física, gera tensões no corpo e diversas outras somatizações.

A ação que vem de uma pessoa em um estado de aceitação é mais eficiente, pois está livre de qualquer negatividade. Assim não há exageros, dramas ou distorções. É uma ação lúcida, que vem de alguém que sabe lidar bem com a realidade.

Os melhores diplomatas, negociadores e conciliadores são pessoas que não ficam brigando internamente com a outra parte, eles aceitam e fazem o melhor possível e assim conseguem resultados muitas vezes surpreendentes. Mas em muitos casos, não há nada realmente a fazer. Reclamar do trânsito, por exemplo, não o fará ir mais rápido. Nesses casos a única coisa sensata a se fazer é entrar no estado interior da aceitação. O mesmo é válido para qualquer fato que tenha acontecido no passado.

Toda a negatividade que criamos em torno da não aceitação, além de gerar estresse, ajuda a atrair mais situações desagradáveis. Atraímos para a nossa realidade aquilo que estamos sentindo, e se nosso estado interior é de desconforto, mais situações desagradáveis surgem. O estado de não aceitação faz ainda a nossa mente ficar focada nas coisas negativas da vida, consumindo nossa atenção, que poderia estar direcionada para coisas boas, ou para criar soluções e transformar a realidade.

Talvez você já tenha passado pela seguinte experiência. Ao se desapegar de um determinado problema que você tentou de várias formas resolver e não conseguiu, surge uma solução sem que seja preciso a sua intervenção, ou que exija apenas uma ação bem simples. O desapego faz parte do estado de aceitação.

Em um estado de paz interior nossa sabedoria aumenta e sabemos de uma forma intuitiva se é possível agir, e caso seja possível, a melhor ação a ser tomada.

(André Lima - www.eftbr.com.br)