“Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça. Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor.” (Cora Coralina)

16 de outubro de 2013

O aspecto simbólico da morte ao longo das vidas sucessivas

Nossa intenção neste texto é levantar uma reflexão sobre o simbolismo presente no
fenômeno morte e suas consequências na construção do imaginário transpessoal do ser
humano.

A morte é fato inevitável na vida de todos nós e, mesmo negando defensivamente a sua fatalidade, ela sempre estará presente, tanto como experiência real (na morte de parentes e amigos), quanto como expectativa em relação ao término de uma encarnação.

Provavelmente, o principal aspecto simbólico ligado à morte é o sentido da impermanência de tudo: contextos existenciais, posses materiais e relacionamentos afetivos.

A relação apego/desapego estará sendo testada em cada uma dessas experiências de morte, no rumo do desenvolvimento no ser humano de uma auto percepção cada vez mais profunda, cada vez menos ligada às informações externas e mais vinculada a um sentido subjetivo da própria existência.

Isso porque nossa autoimagem acaba sendo construída mais pelas informações dos outros do que pela percepção de nossos conteúdos arquivados de vidas passadas, e que nos fazem hoje como somos. A busca pelo autoconhecimento, e pela autonomia de nossas personalidades em relação aos agentes externos, acontecerá pelo investimento nesses momentos de isolamento e autoanálise, situações que a morte nos favorece ou até mesmo nos impõe.

Entramos em um terreno delicado e sofrido de ser compreendido mas, na verdade, todos nós somos seres solitários dentro da construção do nosso amadurecimento psicoespiritual. Claro que estaremos caminhando ao lado de outras pessoas, compartilhando momentos, vidas inteiras, dividindo tarefas comuns a serem realizadas, posses conjuntas, contudo, cada um estará sentindo e vivenciando estas experiências de uma forma única e subjetiva, estabelecendo novos significados por influência dos conteúdos individuais elaborados ao longo das encarnações anteriores. Como ninguém viveu uma vida exatamente igual ao outro, ninguém estabelecerá sentido aos fatos atuais igual aos outros.

Por isso, somos seres solitários dentro da nossa percepção subjetiva da vida. Ninguém sentirá o mundo como você, atribuirá sentidos aos fatos igual a você, reagirá igual a você, porque ninguém possui conteúdos referenciais para atribuir novos significados iguais a você.

Por conta disso, nosso caminho de aprendizagem é pessoal e intransferível, tanto no que toca ao passado como ao que nos espera pela frente.

Acredito mesmo que esta situação está dentro de uma transitoriedade, uma longa transitoriedade que nos levará a uma apreensão mais globalizada e unificada da plenitude, na medida em que nossas consciências alcancem uma expansão que possa apreender a totalidade. Defendo esta ideia em meu livro “Psicanálise da alma”. Mas até este auge do processo de desenvolvimento da individualidade cósmica que somos, estaremos como partes fragmentadas do todo, tendo percepções relativas e subjetivas da realidade ao nosso redor.

Pois a morte, então, nos coloca neste exercício de percepção da nossa solidão interior, da nossa exclusividade psíquica, e isso é fundamental, apesar de doloroso, para o amadurecimento consciencial.

Para seres ainda fragilizados como somos, dependentes invariavelmente em maior ou menor escala dos relacionamentos e posses que nos atribuem sentido, sentir-se sozinho pode ser um forte golpe nas estruturas egóicas, construindo um imaginário traumático ligado às sensações de separação e perda, que se acumulam e vão criando predisposições sintomáticas para as encarnações subsequentes.

Ou seja, é como se ao nascermos já trouxéssemos um natural receio de uma separação e perda inevitáveis que um dia se concretizarão.
Isto, dependendo das variáveis individuais, leva ao surgimento de medos e angústias na coletividade humana.

Mesmo que a pessoa não pare para analisar tal situação e nem se dê conta de seus medos ligados a este momento, ela estará viva e ativa influenciando nossas vidas.

Uma das causas principais dos Transtornos de Pânico está associada à insegurança que esta sensação da impermanência provoca.

Por isso, a medida do apego humano estabelecerá o formato da reação ao fenômeno da morte: quanto mais apegado aos diversos aspectos da vida de encarnado mais o simbolismo da impermanência na morte estará atuante e passível de produzir sintomas patológicos. Quanto mais desapego, mais naturalidade na transição para a vida pós morte, menos formação de traumas ligados às perdas e afastamentos, mais harmonia e plenitude que se transferirão para as vidas seguintes.


(João Carvalho Neto - Psicanalista, autor dos livros “Psicanálise da alma” e “Casos de um divã transpessoal”).

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